7 de fevereiro de 2012

Confidências...


O tempo lá fora chora por ti... a alma emudece o coração tranquilo, e a voz, a voz... rouca de emoção produz sons inaudíveis aos insensíveis seres ignorantes de toda a cena desenrolada entre portas, e quatro paredes... onde o desejo, a ardência, a lascívia se misturam em doses perfeitas, e perfazem um matiz de uma manta de retalhos incompleta pelas horas sorrateiras que passam nos lençóis... intranquilidade assustadora da saudade derramada pelas mãos que percorrem a pele dourada, colorida pelo brilho do suor... escorrido em gotas de paixão, entre gemidos trocados e beijos, beijos... roubados às línguas enlaçadas dentro da boca sedenta de ti, desse gosto doce misturado no meu... num prolongado olhar, profundo... demorado no fundo da alma, contemplando sorrisos, em pequenos gestos arrepiados pelas palavras em silêncio, onde ficam emolduradas na memória imortal do tempo perdido, vagaroso caminhante dos amantes... dóiem-me as pontas dos dedos, onde a tua canção deixou um rasto de veneno agridoce, que se mistura na neblina das manhãs seduzidas pelos raios do sol e pelo brilho dos teus olhos... ondas musicais soltas e gravanas na pauta da vida, embaladas em tons de carmim, e escarlate... pintura salpicada de pedacinhos de algodão soltos ao vento, esvoaçantes nas mentes embriagadas nessa torrente de sentimentos que me escorrem na alma... solta ao alvorecer do dia...

31 de janeiro de 2012

Mero (a)caso!


Quando um dia quiseres estarei lá... onde a chuva faz uma paragem brusca para cair de masinho. Quando um dia quiseres, volto aqui e pouso a mão em cima da tua, e fico a olhar o horizonte, falamos do nada, de coisas perdidas, sentimentos partidos, paixões esquecidas... quando um dia quiseres voltamos a beijar o tempo para ele se esquecer de nós, e vivermos na eternidade envolvente das cores escarlate de que o céu é tingido quando me olhas... quando um dia formos o que não somos hoje, voltamos a dizer palavras doces, amolecidas na paixão do roçar os lábios de mãos dadas... quando um dia chegar o ali, o agora, o momento de tocar o teu rosto mais uma vez, serei só eu... única, indissolúvel da divisão do espaço, aquela que apenas se vê ao espelho nua... quando um dia chegares, eu estarei de braços abertos, sorriso nos lábios, para voarmos até ao infinito... quando um dia quiseres, serei o pássaro no ar, a sereia navegante do teu corpo, enrolado entre os teus braços, misturando-me no teu cheiro, ao sabor dos teus beijos... quando um dia piscar os olhos, a melodia que ecoará pelo ar deste mundo será o brilho dos meus olhos, iluminados por ti... quando um dia for o que um dia sonhei, serei só tua, e de mais ninguém...

18 de janeiro de 2012

Grito do silêncio!


Silêncio... aquele que povoa as ruas desertas da mente, aquele que preenche de frio as almas abandonadas, aquele que atravessa indecentemente os corações solitários, aquele que se faz presente em todos os cantos para onde te olho, na ausência dos dias, das horas que correm desenfreadas pelas calçadas abaixo, sem travão, sem um pingo de vergonha... silêncio, aquele pedaço de gelo derretido  no canto da alma, esquecido e feito animal enrolado debaixo das memórias vivas, aquele que me nasce nas mãos e ao mesmo tempo me morre na boca... silêncio... se faz aqui, onde as aves douradas voavam pelos azuis do céu, deixando um rasto de amargura, um traço grosso como um rio que nasce e corre sem destino, e sem fim... silêncio, derramado nas horas de ponta de uns dedos nervosos que percorrem um corpo arrepiado pelo sentimento que me ferve nas veias, aquele que vive na lembrança dos sussurros proferidos ao ouvido, aquele que me faz alucinar de desejo... silêncio, aquele que me inunda de sangue o coração descompassado, batendo aceleradamente, aquele que de forma atroz se cola aos lábios quando me beijas, e me levas para outra dimensão... silêncio, aquele que se verte no vazio das minhas mãos cheias de saudades, do teu toque, da tua pele, do teu cheiro, agarrados ao meu corpo, à minha pele acetinada e alva de mulher, felina indomável... e no pranto nostálgico do ponteiro do relógio, ergue-se o silêncio da nossa música, distante no tempo e espaço, onde o presente fez uma curva para namorar o futuro... silêncio, silêncio... sorriem os olhos, apaixonados pelas palavras cantadas em notas coloridas numa pauta incolor ditada pelo coração... silêncio...o eco das vozes mudas de uma memória ancorada na alma, que vive dançando valsas com as palavras esquecidas e pintadas a carvão numa folha branca amarelecida pelo tempo... silêncio!...

5 de janeiro de 2012

Um dia depois do outro...


Pintas-me as mãos de rosa, azul céu, e deixas-me na boca um sabor a algodão doce, dessa ternura imensa que me toca as mãos e o corpo. Traço cenários (ir)reais de conjugações imperfeitas em vários sons na escala menor em dó. Floreio-te em canções desmedidas de acordes apenas audíveis ao nível do coração, que bate descompassado nessa linha recta onde balanço diariamente. Rodopio em volta de mim, e deixo que a semente tua seja real, cresça e floresça sem limites, nem limitações, como cordas de era enroscada num sólido tronco de árvore, solitária, no cimo do monte, navegante infinita do vento. (Re)pinto-te de cores de escarlate, marfim e dourado, a condizer com o sol que me aquece o rosto, lívido, sereno... numa resplandecente calma invadindo salas vazias, fechadas, empoeiradas pelo tempo, onde cresces de mansinho, onde ocupas o espaço como inquilino permanente, onde o passar dos anos deixou a marca indelével de quantas arcas e malas ainda se podem encher de farrapos, e vestidos de outras eras... e num leve piscar de olhos a vida dá-nos a volta, e volto a ficar nua... pinto-te e (re)pinto-te várias vezes na tela branca dos dias, um após o outro!...

10 de dezembro de 2011

Intervalos...

Navego por entre as pingas da chuva, fria, mansa... que me cobre o corpo, deleite da alma ansiosa, saudosa de um dia de sol, esticada numa qualquer praia de areia branca e fina, entrelaçada entre o mar e o céu azul, onde se juntam as gotas de água e me banho de emoções... estendo as mãos aos céus e peço... quebro o encanto da chuva que me banha o corpo, e engulo sem freio os arrepios de pele que a mente me provoca... e no ar fica a saudade pairante de uma praia perdida no fundo do mar, onde a água era tão límpida... que se podia atravessar para o outro lado apenas com o olhar... esfinge que renasce, num canto da aurora, envergonhada, tímida... que carrega consigo um misto de ilusão e realidade, baila-me entre os dedos, como esperanças lançadas em esteiras férteis de searas por plantar... volta, sol, que fazes brilhar o meu mundo!... Rodopio entre o ar que me acorrenta e a beleza que me rasga a pele como espinhos cravados numa ferida, num desvairo puro de uma dança ao luar... movimentos de sombras que se entrelaçam e encaixam como peças soltas de um puzzle por terminar... mergulho enfim, nesse mar derradeiro das coisas perdidas, baú de sentimentos (in)esperados que me surpreendem a cada instante, seduzem-me o olhar, perdido no horizonte, na tentativa de alcançar-me... toco-me(te) e canto à lua uma canção de embalar, olhando o céu estrelado, o mesmo que do outro lado do mundo assistes ao cair de uma cadente estrela brilhante, que na sua cauda leva o destino que ficou de portas entreabertas, esperando o futuro voltar... e de mochila às costas vou-me, passeando entre os intervalos das pingas grossas que o céu derrama em cima do mundo, fazendo brotar a vida que da terra nasce, em direcção aos desejos (in)finitos desse presente, que me aconchega as mãos, e me envolve a alma, doce como mel, que se degusta lentamente na boca...

5 de dezembro de 2011

Esboços de mim...


É nas esquinas da vida que ela mais dança para mim, sempre numa tangente desconhecida como um fantasma desconhecido que cruza os dias sem nome, aqueles que são de todos e são de ninguém. Traço planos, sonhos realidades, faço contagens do infinito, onde rolam as intermináveis nuvens que encobrem o sol. Do alto da montanha, avisto-me além, onde um dia tudo aconteceu, onde um dia o vento levou partes de mim, perdidos na memória, encerrados no cárcere que um dia construi. Vendo sonhos, palavras desenhados nos dedos da imaginação, pinto telas e cenários, com cores dobradas em sorrisos e lágrimas. Será a chuva mais bela que o sol? Fecho os olhos, e deixo os cheiros do presente invadiram o espaço vazio do meu salão de festas, os jardins encantados que circundam a planicie do meu corpo. Correm os gritos, em busca da alegria escondida num qualquer canto onde os pássaros multicolores fizeram os ninhos. Ah, e os silêncios que abraçam as horas que demoram a chegar, tardam em dar-me a mão, para balançar comigo na roda gigante. Fujam, o vento vai correr com todos! Ali, no cima do monte, as lágrimas fogem de mim, o eco deixou de me responder, e o leve pestanejar da escuridão diz-me: - olá, posso fazer-te companhia? Poque não, a luz abandona-me tantas vezes, que o por-do-sol tem necessidade de dar lugar ao luar, mas com estrelas, que na fábulas o mundo é encantado, e vivem lá as fadas, os anões, as princesas... e os cavaleiros andantes, que salvam princesas de tranças compridas. Ah, é uma festa em grande! Onde correm todos atrás de todos, sem nunca se conseguirem apanhar... tapo os olhos, e conto até cem, vamos jogar às escondidas!?... e não vale fazer batota!...

24 de novembro de 2011

Dançando(-me) entre os dedos...


Fecho os olhos da mente por um instante, escorrego na impulsividade do momento, na incerteza ditada pela intuição, regras do jogo alteradas, em movimentos (in)certos, carregados de emoção, saltos no tempo, em lufadas de ar, excessos de espaços por (d)escrever neste traçado risonho que se desenha de forma alucinada numa travessia louca de desejos, anseios, expectativas, esperanças... constante viragem do tabuleiro, e agora? Segue-se sempre em frente, contornando pontes por riscar, atravessando obstáculos escondidos debaixo de um qualquer alçapão com restos mortais enterrados, já empedrenidos pelo tempo, onde as teias de aranha abundam, e o ar a mofo se faz sentir. Ah, rodo o chave mais uma vez, e uma infinidade de portas se encontram na minha frente... apetece-me olha-las uma por uma, para me perder numa delas apenas. Marco cada passo na memória, calculo os passos dados em falso, desfaço o que um dia foi construido, e volto ao incio do jogo. Rodopio sobre mim de olhos fechados... e no momento em que paro, escolho uma porta ao acaso. E o próximo passo... conjugo o verbo no presente, sem olhar para trás! Sem rede de protecção, sem entrelaçar as linhas do futuro com o passado, desfazendo um novelo ainda por enrolar... é o engolir do abismo de uma só vez!

15 de novembro de 2011

Uma fracção de segundo...

Quanto vale uma fracção de segundo? Nada, ou quase tudo... Quanto vale? Uma palavra, um abraço, um beijo, um sorriso, um olá, uma gracejo, uma gargalhada, um toque, um olhar, um silêncio... tudo, ou quase nada. Nunca pensamos quando agimos na impetuosidade dos dias que rolam estrada abaixo, e no entanto, tentamos racionalizar tudo o que nos passa pela frente, medir em graus, intensidades, uma infinidade de pesos e medidas que nada valem, e não cabem em lado nenhum. Num segundo se pode nascer, gritar ao mundo estou aqui, cheguei... como no segundo seguinte o silêncio nos cala a voz, grita surdamente que afinal já não estamos aqui, já não somos, e por momentos a vida não vale absolutamente nada, é apenas uma fracção de segundo entre duas virgulas, entre dois espaços em branco que se escrevem e ficam gravados na eternidade do passado, da memória dos que cá ficam. Será o mesmo que dizer, num segundo tudo pode começar, como pode acabar da mesma forma, como uma fumaça que se evapora no ar, impossível de ser agarrada... A ânsia de viver parece engolir tudo e todos nesta corrida desenfreada que é contarmos os minutos no ponteiro do relógio, quando o bip do ponteiro vermelho circula sempre sem parar, ou serão as batidas cardíacas que compassadamente batem, numa atroz embuscada do tempo, aquele que apenas existe na nossa imaginação, ao alcance de ninguém... Quanto valem as pingas grossas que brotam do céu e me lavam o rosto? Ninguém sabe responder!... Ou talvez não sejam precisas explicações para os jogos que o emaranhado dos dias nos coloca na nossa frente, é viver apenas e só, somente existir, somente ser... E não vale jogar às escondidas com o destino, ele encontra-nos sempre!